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Avaliação do Desenvolvimento Motor em Crianças Prematuras Segundo a Alberta Infant Motor Scale: Uma Revisão Sistemática

Avaliação do Desenvolvimento Motor em Crianças Prematuras Segundo a Alberta Infant Motor Scale: Uma Revisão Sistemática

INTRODUÇÃO

A prematuridade é caracterizada pelo nascimento entre 22 e 37 semanas de gestação, sendo considerados “prematuros extremos”, os que nasceram antes de 28 semanas, e por este motivo, podem apresentar maiores riscos no desenvolvimento, devido à imaturidade dos órgãos e sistemas. A prematuridade pode ocorrer por diversos fatores, entre eles podemos citar a indução do parto devida a infecção pelo vírus do Covid-19, tabagismo, condições socioeconômicas, ruptura prévia da bolsa, gestações múltiplas, má formação intrauterina e baixo peso materno (SANTOS et al., 2012).

A ciência moderna tem avançado cada vez mais nos estudos relacionados à prematuridade, a fim de intervir e proporcionar qualidade de vida a essas crianças. O uso de ventiladores mecânicos pediátricos, do surfactante e do corticoide pré-natal, são fatores que contribuíram muito nas últimas décadas para a melhoria da sobrevida de bebês nascidos prematuros e considerados de alto risco, o que reduziu significativamente a taxa de mortalidade, tornando-os menos vulneráveis às complicações (FUENTEFRIA, 2017).

O sistema nervoso é um dos sistemas mais acometidos da prematuridade, podendo ocorrer déficits neurossensoriais graves e definitivas, como deficiência visual, auditiva e paralisia cerebral. Portanto, se faz necessário a avaliação periódica do progresso do desenvolvimento motor de cada criança, visto que essa pratica facilita intervenções precoces, melhorando a qualidade de vida do bebê. Nesse sentido, destaca-se a AIMS (Alberta Infant Motor Scale) criada em 1991, cujo objetivo é avaliar bebês de risco e monitorar mudanças no desenvolvimento motor, além de discriminar comportamentos motores atípicos nos primeiros 18 meses de vida (MANACERO; NUNES, 2008).

Contudo, o Brasil enfrenta o desafio da escassez de dados normativos e de instrumentos padronizados e validados na primeira infância, ou seja, um método sistematizado, esse problema acaba por não padronizar os testes e interferir diretamente nos resultados, visto que essa falta de organização gera dados menos confiáveis e com baixa sensibilidade e especificidade (MOREIRA; GRAVE, 2014).

Profissionais da saúde que trabalham com a funcionalidade das crianças segundo a AIMS, podem traçar um plano tornando possível conhecer fatores de risco, bem como os marcos do desenvolvimento, com o objetivo de proporcionar um tratamento mais efetivo com resultados cada vez mais satisfatório. A AIMS é um instrumento observacional da motricidade ampla, que avalia a sequência do desenvolvimento motor e o controle da musculatura antigravitacional nas posturas prono, supino, sentado e de pé, de crianças a termo e pré-termo (VALENTINI; SACCANI, 2011). Portanto, o objetivo desse estudo é realizar uma revisão de literatura sistemática sobre a avaliação do desenvolvimento motor dos recém-nascidos prematuros segundo a Alberta Infant Motor Scale, considerando que é de suma importância o diagnóstico e intervenção precoce.

METODOLOGIA

Esse estudo trata-se de uma análise quantitativa e descritiva, sendo realizada uma revisão de literatura sobre o tema, utilizando artigos dos últimos 06 anos, disponíveis nas seguintes bases de dados: Pubmed (US National Library of Medicine National Institutes of Health), Scielo (Scientific Electronic Library Online) e Lilacs (Latin American and Caribbean Health Sciences). Para isso, foram utilizados os seguintes descritores: prematuridade, desenvolvimento motor, récem-nascido e Alberta Infant Motor Scale. Vale ressaltar que a pesquisa foi realizada em todas as bases de dados segundo os mesmos critérios.

Para esse estudo, considerou-se a prematuridade tardia (34 semanas completas a 36 semanas e seis dias de IG), prematuridade moderada (32 semanas completas a 33 semanas e seis dias de IG) e prematuridade extrema (23 a 31 semanas e seis dias) critérios definidos segundo Shapiro-Mendoza & Lackritz, sendo incluídos estudos que apresentassem um dos seguintes delineamentos: estudo de coorte (prospectivos ou retrospectivos), estudo transversal, estudo de caso controle, trabalhos que trouxessem a Alberta Infant Motor Scale como instrumento de avaliação do desenvolvimento motor amplo. Além disso, foram excluídos artigos que não fizeram parte dessa faixa etária de 06 anos.

Por se tratar de um estudo que não envolve teste em humanos, sendo assegurada a ética sob a Resolução nº 510/2016, não se faz necessário à submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), devido se tratar de dados secundários de controle público.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram analisados 30 títulos listados e 05 selecionados para a revisão. As características do estudo estão descritas na tabela abaixo.

Tabela 01: Características dos estudos envolvendo o desenvolvimento motor de prematuros de risco avaliados pela AIMS.

Autor/ano Local do estudo Idade gestacional Idade das avaliações Principais resultados
Lackovic et al. (2020) Sérvia IG: < 32 semanas 0-14 meses Aos 0-3 meses: os valores sentados e em pé foram menores para o avaliador 2 (ICC 0,671; ICC 0,725, respectivamente);
Aos 4-7 meses: os valores em pé foram menores para o avaliador 1 (ICC 0,655) e o avaliador 2 (ICC 0,782).
Santos et al. (2021) Brasil IG:28-36 semanas 0-18 meses Aos 4 meses: o resultado predominante, em todas as avaliações, foi compatível com desenvolvimento motor adequado.
Lersel et al. (2020) Holanda e Canadá IG: <37 semanas 2-18 meses Cerca de 75% da pontuação de bebês holandeses abaixo do P50 canadense. 38% dos bebês canadense pontuaram abaixo do P10.
Spittle et al. (2015) Austrália IG: <30 semanas 4, 8 e 12 meses e aos 4 anos Aos 4 meses:
22% (n = 19) apresentaram percentil <10th
Aos 8 meses:
26% (n = 23) apresentaram percentil <5th;
Aos 12 meses: 36% (n = 31) apresentaram percentil <5th
Paralisia Cerebral (4 anos): 7% (n = 6) apresentaram PC
Formiga et al. (2015) Brasil IG: <37 semanas 0-6 meses 1 mês:
30% com atraso (percentil <10)
2 mês:
20% com atraso (percentil <10)
3 mês:
40% com atraso (percentil <10)
4 mês:
33% com atraso (percentil <10)
5 mês:
33% com atraso (percentil <10)
6 mês:
43% com atraso (percentil <10)

A AIMS é um protocolo que permite a avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor de recém-nascidos, sendo considerada uma escala simples que proporciona identificar quatro posições: prono, supino, sentado e em pé. Um estudo realizado em Vitória da Conquista- Bahia, o qual utilizou a AIMS como instrumento de avaliação, contou com 42 lactentes, nascidos com menos de 37 semanas e idade corrigida para 40 semanas, foram feitas quatro avaliações com os seguintes resultados: na primeira avaliação 9,5% dos 42 bebês apresentaram desenvolvimento suspeito; na segunda avaliação 23,1% de 23 lactente possuíam desenvolvimento suspeito quanto ao desenvolvimento motor; na terceira, 31,2% de 16 lactentes apresentavam desenvolvimento suspeito e 6,3% passaram a ter desenvolvimento atípico; na quarta avaliação 16,7% apresentavam desenvolvimento atípico. Comprovou-se a eficiência da AIMS como ferramenta de avaliação, além da constatação de que as alterações motoras apresentaram-se após a terceira avaliação (REBOLÇAS et al., 2018)

Em um estudo realizado por Giachetta et al (2010), no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), foram analisados 67 RN (41 do sexo masculino e 26 do sexo feminino) com idade gestacional ao nascimento menor ou igual a 36 semanas e 6 dias, com idade corrigida de até 60 dias, utilizando a AIMS como instrumento de avaliação. Segundo os autores, os recém-nascidos do grupo analisado que ficaram por menor período na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIn) apresentaram melhor desenvolvimento motor em relação à aqueles que permaneceram por um maior período de tempo na UTIn, já que, os RN internados em UTIn acabam sendo privados de estímulos adequados para seu desenvolvimento, sendo submetidos à hiperestimulação excessiva de ruídos, luzes, intervenções dolorosas e interrupções de sono, não estando aptos para responder de forma organizada à esses estímulos contínuos os RN acabam por ter comprometimento de seu desenvolvimento.

Uma análise realizada em Fortaleza-Ceará, a qual contou com 24 crianças pré-termo e 24 a termo a fim de comparar o desenvolvimento destes indivíduos, utilizando a AIMS como base, demonstrou considerável diferença motora entre as crianças a termo e pré-termo entre 4 a 6 meses de vida em todos os aspectos da escala de AIMS e algumas crianças apresentaram desenvolvimento inferior ao esperado pelos dados da escala. Foi sugerido que, fatores como, idade e controle postural, além do instrumento utilizado na avaliação, exercem significativa influência na avaliação do desenvolvimento das crianças e que a AIMS é uma escala que pode ser seguramente utilizada (MAIA et al., 2011).

Silva e colaboradores (2021) trazem consigo, questões que associam a performance de prematuros segundo a AIMS, levando em consideração duas vertentes: baixas condições socioeconômicas e o desenvolvimento motor de lactentes prematuros. O estudo constatou que as baixas condições econômicas de familiares de prematuros associada a um tempo prolongado de UTIn influenciam de forma negativa para o desenvolvimento motor bruto dos lactentes ao serem avaliados segundo à AIMS. Segundo a pesquisa, o ambiente pode corroborar para facilitar ou reduzir o progresso cognitivo dos indivíduos prematuros, já que, os recém-nascidos hospitalizados são expostos a um grande número de estímulos negativos que comprometem seu desenvolvimento.

Um estudo transversal que contou com 561 crianças de até 18 meses que participam de escolas e creches, utilizou a AIMS através de suas sub-escalas (prono, supino, sentado e em pé) para avaliar seus participantes. Para executar esse processo através da AIMS, o examinador observa a movimentação das crianças e eleva em consideração aspectos como a sustentação do peso do corpo, a postura corporal e movimentos antigravitacionais. No estudo foi constatada uma grande variação das aquisições motoras em todas as posturas, sendo as pontuações mais baixas para as posições prono e em pé, o que pode estar associado a praticas culturais, falta de estimulação para as posturas com baixa pontuação ou pelo predomínio da posição supino para dormir (SACCANI; VALENTINI, 2010).

Um estudo prospectivo realizado por Lackovic et al. (2020) com 60 bebês sérvios, no Hospital Infantil, divididos em três grupos de idade: 0–3 meses, 4–7 meses e 8–14 meses utilizando a AIMS em duas ocasiões diferentes com um período de cinco dias entre os testes demonstrou que a escala possui alta consistência e alta confiabilidade com estabilidade temporal boa a alta, além disso, pode-se concluir que a AIMS é de grande importância para a inclusão adequada e única de um tratamento eficaz com acompanhamento adequado de bebês prematuros.

Uma análise descritiva e exploratória realizada com 122 lactentes que nasceram com idade gestacional entre 28 e 36 semanas, realizada no núcleo de estudo de Fisioterapia de uma faculdade privada concluiu que o bebê prematuro apresenta maior predisposição a hipotonia muscular, portanto é de suma importância detectar o mais rápido possível qualquer alteração no desenvolvimento motor, sendo assim, a AIMS possui um papel fundamental neste quesito, pois a partir dela foi possível identificar e explorar a evolução no desenvolvimento dos prematuros (SANTOS et al., 2021).

Os bebês prematuros apresentam maior risco para atrasos na aquisição das habilidades neuromotoras, sendo assim, Formiga e colaboradores (2015), realizaram um estudo com 10 crianças nascidas pré-termo, de ambos os sexos, dos 4 aos 8 meses, sendo que cada criança foi avaliada três vezes, com isso, pode-se concluir que a AIMS permitiu detectar atrasos no desenvolvimento motor de crianças prematuras nascidas com baixo peso até o 8º mês de idade corrigida, principalmente no que se refere à habilidade de sentar. Com isso fica claro que a escala é crucial para avaliação de crianças prematuras.

Um estudo realizado por Spittle et al. (2015) na Austrália com 120 crianças prematuras do Royal Women’s Hospital ou Royal Children’s Hospital, Melbourne, durante o primeiro ano de vida, demonstrou que a taxa de atraso motor na infância diferiu de acordo com a ferramenta de avaliação usada, além disso, a AIMS avalia apenas o desenvolvimento motor grosso por meio da observação. Em conclusão, a avaliação de bebês durante o primeiro ano de vida é uma parte importante dos programas de acompanhamento neonatal para examinar e prever o desenvolvimento motor, e, além disso, garantir que a intervenção precoce seja direcionada para aqueles com maior risco.

CONCLUSÃO

Através da análise dos diversos estudos utilizados nessa revisão literária, pode-se concluir que, a AIMS é um instrumento válido e confiável para avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor de crianças prematuras. Esse instrumento de avaliação de desenvolvimento motor grosso é considerado eficaz e pode ser utilizado tanto de forma isolada quanto associada a outros métodos de avaliação de prematuros. Outra vantagem da AIMS é a facilidade de aplicação e acessibilidade financeira, podendo facilmente ser inserido no sistema público de saúde.

Constatou-se que, em avaliações realizadas tendo a AIMS como instrumento avaliativo, na grande maioria dos estudos realizados com prematuros que permaneceram em UTIs neonatais por grandes períodos de tempo, bem como aqueles que pertencem a famílias de baixas condições socioeconômicas e que nasceram prematuros extremos, tiveram maior dificuldade em seu desenvolvimento visto que, esses fatores influenciaram de forma negativa para seu desenvolvimento.

REFERÊNCIAS

1. FUENTEFRIA, R. N. et al. Desenvolvimento motor de prematuros avaliados pela Alberta Infant Motor Scale: artigo de revisão sistemática. J. Pediatr. (Rio J.) 93 (4). Jul-Aug 2017.

2. MANACERO, S.; NUNES, M. L. Avaliação do desempenho motor de prematuros nos primeiros meses de vida na Escala Motora Infantil de Alberta (AIMS). J. Pediatr. (Rio J.) 84 (1). Fev 2008. https://doi.org/10.1590/S0021-75572008000100010

3. MOREIRA, E. G.; GRAVE, M. T. Q. Avaliação Do Desenvolvimento Motor De Crianças Prematuras Nascidas Em Uma Pequena Cidade Do Vale Do Rio Dos Sinos. Revista Destaques Acadêmicos, VOL. 6, N. 3, 2014 – CCBS/UNIVATES.

4. VALENTINI, N. C.; SACCANI, R. Escala Motora Infantil de Alberta: validação para uma população gaúcha. Rev. paul. pediatr. 29 (2). Jun 2011.

5. LACKOVIC, M. et al. Confiabilidade, consistência e estabilidade temporal da escala motora infantil de Alberta em bebês sérvios. Children. 2020, 7 (3), 16; https://doi.org/10.3390/children7030016

6. SANTOS, J. S. et al. Habilidade motora grossa em lactentes prematuros segundo a Alberta Infant Motor Scale. Fisioterapia Brasil 2021;22(1):10-24.

7. LERSEL, P. A. M. et al. Alberta Infant Motor Scale: análise transcultural do desenvolvimento motor grosso em bebês holandeses e canadenses e introdução das normas holandesas. Early Human Development. Volume 151, Dezembro de 2020, 105239.

8. SPITTLE AJ, Lee KJ, Spencer-Smith M, Lorefice LE, Anderson PJ, Doyle LW. Accuracy of two motor assessments
during the first year of life in preterm infants for predicting motor outcome at preschool age. PLoS One. 2015;10:e0125854.

9. FORMIGA CK, Cezar ME, Linhares MB. Avaliação longitudinal do desenvolvimento motor e da habilidade de sentar em crianças nascidas prematuras. Fisioterapia e Pesquisa, São Paulo. 2010;17:102-7.

10. REBOLÇAS, D.T. et al. Desempenho motor de recém-nascidos prematuros: Alberta Infant Motor Scale Premature newborn motor performance: Alberta Infant Motor Scale. Fisioterapia Brasil. 2018;19(4):480-489

11. GIACHETTA L., Influência do tempo de hospitalização sobre o desenvolvimento neuromotor de recém-nascidos pré-termo. Fisioterapia e Pesquisa, São Paulo, v.17, n.1, p.24-9, jan/mar. 2010.

12. MAYA, P. C. et al. Desenvolvimento motor de crianças prematuras e a termo – uso da Alberta Infant Motor Scale. Acta Paul Enferm , [s. l.], 2 jun. 2011.

13. SILVA, G. M. et al. Performance motora de lactentes prematuros segundo a Alberta Infant Motor Scale: Uma revisão de literatura. Research, Society and Development, [s. l.], 21 jun. 2021. DOI: 10.33448/rsd-v10i7.16402.

14. SACCANI, R.; VALENTINI N.C. Análise do desenvolvimento motor de crianças de zero a 18 meses de idade: Representatividade dos itens da Albert Infant Motor Scale por faixa etária e postura. Revista Brasileira Crescimento e Desenvolvimento Humano. 2010

Artigo Publicado: 28/04/2022



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