A Interferência dos Recursos Lúdicos na Motricidade Fina dos Idosos Longevos da Localidade de Italva-RJ
INTRODUÇÃO
O envelhecimento da população, em nosso país é um fenômeno que vai trazer várias transformações em nossa sociedade. As políticas de saúde pública e privada deverão ser revistas para garantir atendimento integral a esse grupo. O crescimento mais acelerado da população idosa em relação aos demais grupos ocorre devido à queda da fecundidade e do aumento da taxa de expectativa de vida devido as melhores condições de vida da população, mais acesso e maior uso da tecnologia para benefício humano (Conrado et al, 2014).
A motricidade fina envolve movimentos de pouca força, muita precisão e velocidade, no entanto essa precisão e principalmente a velocidade na maior parte dos idosos ocorre alterações significativas que podem causar danos nas atividades de vidas diárias e até mesmo danos maiores como psicológicos, por exemplo (ESTIVALET &CORAZZA, 2017).
O uso de recursos lúdicos provoca uma participação social dos idosos auxiliando na motricidade fina dos mesmos e deve ser levado em conta trabalhos de agilidade, precisão e coordenação motora, relacionadas a cada jogo especifico (LIMA et al, 2017). O estímulo lúdico é um facilitador no tratamento tanto de crianças como de idosos, que através desta melhora a motricidade fina, o cognitivo e por conseqüência esse paciente tornar-se-á mais alegre, melhorará sua inserção na comunidade e sua satisfação em viver (MENDONÇA & MACEDO, 2010).
A proposta desse estudo se justifica pelo número crescente de idosos no Brasil, devido ao aumento da expectativa de vida e pela queda na taxa de natalidade, por isso se faz necessário estudar a motricidade em idosos longevos, para reconhecer disfunções e alcançar o melhor tratamento, podendo manter assim a funcionalidade desse público.
MATERIAIS E MÉTODOS
O presente trabalho trata-se de um ensaio clínico aleatorizado. A amostra foi composta por quarenta e oito idosos com oitenta anos ou mais, de ambos os sexos. Os critérios de exclusão foram: comprometimento da função cognitiva, da capacidade visual parcial ou total, ter lesões em membros superiores, doença terminal, recusa à participação, não colaboração, doenças neurodegenerativas ou musculoesqueléticas que suscitem incapacidades em membros superiores. Foi aprovado pelo Comitê de Ética CAAE: 12740219.4.0000.5648.
O termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) foi aplicado para que cada participante declare seu interesse e disponibilidade em participar da pesquisa em questão. A comprovação foi feita mediante assinatura ou impressão digital de tais integrantes.
Foi aplicado o teste do Mini Exame do Estado Mental, que possui múltiplas funções, tais quais: avaliação da cognição, avaliação da orientação em tempo e espaço, escrita em três palavras, atenção e cálculo, memória, linguagem e prática de construção visual. A pontuação desse exame é dada a cada execução e pode ser de zero a trinta pontos. Foram excluídos idosos que possuíam pontuação menor ou igual a vinte e quatro pontos; em caso de menos de quatro anos de escolaridade, o ponto de corte passa para dezessete, em vez de vinte e quatro.
Com a finalidade de traçar o perfil social do entrevistado, foi aplicada uma Ficha de Dados Sociodemográficos, que incluíram perguntas como: idade, sexo, estado civil, escolaridade, situação de moradia, ocupação social, estado de saúde física e mental, uso de medicação e uso de tabaco e bebidas.
A capacidade da motricidade fina deu-se através do teste Nove Buracos e Pinos (9HPT), que é o teste padrão ouro para tal análise. Criada por Mathiowetzetal (1985), tal experiência foi validada no Brasil por Tilberyet al em (2005), com Alpha de Cronbach 0,94; confiabilidade considerada excelente (DIZ et al, 2014). Sendo composto por nove pinos de 0,9 cm de diâmetro e 3,2 cm de comprimento; uma prancha de madeira com dimensão de 10x10x2 cm contendo nove buracos de 1 cm de diâmetro e 1,5 cm de profundidade. No referido teste, o avaliado deveria retirar todos os pinos e encaixá-los novamente com a mão dominante e com o tempo cronometrado, não podendo ultrapassar a marca de cinco minutos. Esse procedimento foi repetido duas vezes e o menor tempo de execução foi computado para avaliação. Para que o participante entenda a mecânica e se sinta confortável para efetuar as ações realizadas no teste, um treino ocorreu antes que o primeiro tempo foi computado. Os participantes foram instruídos e continuamente incentivados a realizarem o teste o mais rápido possível. Um cronômetro foi utilizado para registro do tempo gasto em cada uma das três tentativas realizadas, e o menor tempo gasto foi utilizado como variável dependente.
Os integrantes da amostra foram distribuídos de forma aleatória, em dois grupos de vinte e quatro participantes cada. Um grupo recebeu intervenção com estímulos lúdicos para motricidade fina e o outro grupo, como controle, não contou com nenhuma intervenção. A alocação foi realizada de maneira oculta por outro pesquisador.
Foram realizadas dez intervenções ao todo, executadas dentro de quarenta e cinco dias, com aproximadamente 02 vezes por semana, com duração de aproximadamente trinta minutos cada. Foram realizadas atividades lúdicas como: pintura, desenho e remoção de bolinhas de dentro do pote. O tempo de dez minutos foi pré-estabelecido para cada atividade, podendo variar para mais ou menos e os dez minutos restantes refere-se à chegada e adequação para as atividades.
As atividades relacionadas ao desenho contaram com duas fases. Na primeira, figuras pré-estabelecidas, tinham a propriedade de analisar a compreensão do paciente, assim como a precisão e a capacidade de coordenação motora. Nela, o paciente desenhou uma árvore, um sol e nuvens. Em seguida, ele foi convidado a pintar desenhos simples que estavam impressos e em um tamanho médio. Assim, pode-se analisar, mais uma vez, sua precisão. Ainda no plano das atividades, durante a contagem do tempo, foi realizada a retirada de bolinhas de dentro de um pacote. Essas bolinhas serão de cor branca e vermelha e 10 delas foram retiradas do recipiente. Ao final, o tempo decorrido foi computado. Após realizada as dez intervenções foi aplicada a repetição do teste de Nove Buracos e Pinos (9HPT).
Antes e depois da avaliação, foram avaliadas as capacidades funcionais dos idosos, por dois testes já validados na literatura. O Índice de Barthel, além da funcionalidade já citada, é composto por dez atividades básicas da vida diária: alimentação, banho, higiene pessoal, modo de se vestir, intestinos, bexiga, transferência para higiene íntima, transferência-cadeira e cama, deambulação e o ato de subir escadas. O escore será correspondente à soma de todos os pontos obtidos, sendo considerado independente o indivíduo que atingir a pontuação total, isto é, cem pontos. Pontuações abaixo de cinquenta indicam dependência em atividades da vida diária (REIS et al, 2015).
A Escala de Lawton engloba atividades mais complexas e necessárias para uma vida social mais autônoma, tais como: telefonar, efetuar compras, preparar as refeições, arrumar a casa ou cuidar do jardim, fazer reparos na casa, lavar e passar a roupa, usufruídos meios de transporte, usar medicação e controlar finanças particulares e/ou da casa. Essas são denominadas atividades instrumentais da vida diária. Para cada questão a primeira resposta significa independência. A segunda nos mostra dependência parcial ou capacidade com ajuda e a terceira, dependência. A pontuação máxima é de vinte e sete pontos (REIS et al, 2015).
A análise dos dados foi coletada por meio da estatística descritiva com média e desvio padrão e do teste de hipótese para amostra pareada, de acordo com as características de normalidade dos dados.
RESULTADOS

A estatística descritiva mostrou que 58,3% dos integrantes deste grupo do sexo masculino para 41,7% dos integrantes deste grupo do sexo feminino no grupo controle. (Tabela 1). No grupo intervenção 62,5% dos participantes aptos para a pesquisa do sexo masculino e 37,5% do sexo feminino. (Tabela 2).


Em relação ao desempenho nos testes, o grupo controle obteve na escala de Lawton, média de 24,8 pontos e com um desvio padrão de 1,79. Já em relação à escala de Barthel uma média de 94,5 pontos e com um desvio padrão de 2,62. (Tabela 3)
Em relação ao teste de 9 pinos antes e após 6 semanas foram, média pontual de 37,7 e uma desvio padrão de 7,14. E média de 38,8 e desvio padrão de 7,03, respectivamente. (Tabela 4)

No grupo intervenção, a média de idade dos 24 participantes é de 86,5 anos, com um padrão de derivação de 4,68. Em relação ao desempenho nos testes, escala de Lawton a média foi de 25 pontos e com um desvio padrão de 1,55. Já em relação à escala de Barthel a média foi de 94,8 pontos e com um desvio padrão de 3,21. (Tabela 5)
Em relação ao teste de 9 pinos, antes e depois da intervenção, os participantes alcançaram uma média pontual de 37,7 e uma desvio padrão de 7,17, média de 37,5 com desvio padrão de 6,33, respectivamente. (Tabela 5)

A análise de inferência, pelo teste T de Students, comparou as médias após as seis semanas e não encontrou diferença significativa entre os grupos (Tabela 6) e (Figura 1) respectivamente.

DISCUSSÃO
O presente estudo teve o objetivo de avaliar os efeitos dos recursos lúdicos na motricidade fina dos membros superiores em idosos. Não houve efeito dos exercícios versos o controle nas atividades da vida diária e no teste de nove pinos. Do conhecimento dos autores, este foi o primeiro ensaio clínico que avaliou os efeitos dos exercícios lúdicos na motricidade fina.
Em estudo realizado por De Almeida & De Freitas (2012) com treze diabéticos sem diagnóstico de neuropatia periférica e treze indivíduos sadios, os indivíduos diabéticos têm desempenho similar em tarefas que exigem destreza dos dedos e que envolvem a participação do membro superior como um todo. Com uma análise realizada pelo teste de 9 pinos e buracos, similar ao deste estudo, os resultados do 9 pinos e buracos no estudo são de 15,33 (1,65) s para diabéticos em contraposição a 15,48 (2,39) s para o grupo controle.
O trabalho atual não selecionou um grupo com doenças específicas e sim foi separado por idade e localidade, entretanto através de um questionário sociodemográfico foi constatado que uma grande parte dos participantes possuía diabetes. Em relação à idade dos pacientes da pesquisa é um diferencial dos estudos, visto que, este priorizou idosos longevos (80 ou mais), residentes na comunidade.
Pinheiro & Gomes (2014), em um estudo de caso realizado com uma paciente asilada de 69 anos, com diagnóstico de alteração de cognitivo leve, no qual foram realizadas 30 sessões, sendo duas vezes por semana, com duração de 45 a 60 minutos. Para isso, fez uso de bexigas; bolas coloridas de diferentes texturas, tamanho e sons; jogo da memória de animais para percepção visual, memória e reconhecimento, com o terapeuta imitando e soletrando os nomes dos animais e a paciente repetia. Os autores reportaram mais confiança do paciente, no que se diz respeito às atividades realizadas, elevou a autoestima, melhora significativa da alegria, satisfação e maior interação entre paciente.
Mendonça & Macedo (2010), realizaram um estudo de caso com uma paciente de 69 anos, asilada e com diminuição de coordenação motora grossa e fina na mão esquerda. As intervenções foram realizadas duas vezes por semana por 30 dias, em dez sessões com duração de 45 a 60 minutos. Foi observado que os exercícios lúdicos trouxeram melhorias relacionados a comunicação entre a paciente e terapeuta, progresso na atenção, compreensão, manipulação, percepção, vontade, auto-estima, interação, interesse, raciocínio, disposição, socialização, noção de espaço.
Na pesquisa atual sucedeu-se uma melhora na atenção e na compreensão. Com a progressão da pesquisa foi percebido uma melhora no emocional dos participantes como felicidade e satisfação, no entanto, de maneira subjetiva, por meio de relatos verbais e visuais dos participantes para com o aplicador. Assim como, este era um objetivo secundário da pesquisa foi alcançado veemente e relatado pelos integrantes da pesquisa.
Abreu et al (2016) em um ensaio clínico com 53 idosas com idade entre 60 e 75 anos, com seguimento de 20 semanas, utilizou a Escala Motora da Terceira Idade – EMTI, de Rosa Neto. Os autores reportaram todas as valências tiveram significativa melhora após as intervenções quando comparadas com os resultados iniciais. A motricidade fina subiu sua pontuação de 90 para 99, mantendo-se na classificação de normal médio, o que no caso desta pesquisa é um bom resultado pois ainda está acima da aptidão motora geral.
Na pesquisa atual o tempo total intervenção foi de 45 dias, diferindo da pesquisa supracitada, possibilitando assim, viabilidade de que caso transcorresse um tempo maior estes idosos poderiam apresentar uma melhora significativa, no que se diz respeito ao ganho da motricidade fina.
Á presente pesquisa apresentou melhora no grupo controle dentro do próprio grupo controle, porém esta diferença relacionada ao grupo intervenção não é significativa. É possível que os exercícios lúdicos preservam a motricidade já existente. A amostra de idosos mais velhos foi com o objetivo de encontrar maiores comprometimentos nos escores dos testes e aumentar a probabilidade de encontrar diferenças entre os grupos. No entanto, essa diferença não foi observada.
Na percepção dos autores, há necessidade de continuar investigando os efeitos dos exercícios na motricidade fina. A comparação dos efeitos dos exercícios de força e de motricidade fina, maior frequência semanal, tempo de seguimento de pelo menos doze semanas e com tamanho amostral maior são recomendados.
CONCLUSÃO
Este foi o primeiro ensaio clínico que avaliou os efeitos dos exercícios na motricidade dos membros superiores em idosos longevos. Não houve melhora significativa nas atividades da vida diária e na motricidade fina. No entanto, há necessidade de continuar pesquisando os efeitos dos exercícios através de combinação de modalidades diferentes.
REFERÊNCIAS
DE ABREU ARAÚJO, M. H., MAGALHÃES, F. G., LISITA, C. C., & JÚNIOR, J. T. The influence of a weathered training program of 20 weeks in fine motricity, global motricity and balance in older. Revista Educação em Saúde, v. 4, n. 1, 2016.
DE ALMEIDA LIMA, K. C., & DE FREITAS, P. B. Avaliação da função manual e da força de preensão palmar máxima em indivíduos com diabetes mellitus. Fisioterapia e Pesquisa. n.19 v.4, p.375-380. (2012).
MENDONÇA, T. C., & MACEDO, A. B. A importância do lúdico durante o tratamento fisioterapêutico em pacientes idosos com déficit cognitivo–estudo de caso. Revista Eletrônica “Saúde CESUC. n. 1 v.1, p.1-11. (2010).
PINHEIRO, S. B., & GOMES, M. L. Efeitos das atividades lúdicas no idoso com alteração do cognitivo leve: uma revisão sistemática. Revista Pesquisa em Fisioterapia, n. 4, v.1 p. 71-77. (2014).
ARTIGO PUBLICADO EM 25/02/2026
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