Digite sua palavra-chave

post

A importância da prevenção ergonômica na lombalgia em trabalhadores de escritório

A importância da prevenção ergonômica na lombalgia em trabalhadores de escritório

O trabalho informatizado e a prevalência de certos tipos de atividades profissionais estabelecem uma estreita relação entre trabalho e determinados tipos de patologias. De fato, as posturas de execução do trabalho têm provocado no sistema músculo-esquelético do ser humano lesões associadas diretamente à sua forma de execução. Assim, o número de profissionais acometidos de patologias no trabalho tem sido cada vez maior. Além de uma diminuição substantiva na produtividade, altos custos econômicos para o trabalhador, para a empresa e para a sociedade, essas lesões causam, acima de tudo, sofrimento físico e psicológico para o trabalhador. A lombalgia é uma dessas lesões. Atualmente, ela acomete uma significativa parcela de trabalhadores, principalmente aqueles que trabalham sentados, em ambientes como em escritórios.

Dada a grande incidência dessas patologias, o conhecimento de técnicas ergonômicas e sua filosofia para adaptar o trabalho ao homem, têm gerado grandes benefícios a funcionários e às organizações.

O presente artigo tem por escopo discutir a importância da prevenção ergonômica e do exercício físico na lombalgia em trabalhadores de escritório. Para tanto, será feita uma revisão bibliográfica sobre o assunto. Nos itens que serão apresentados a seguir discorre-se primeiramente sobre as mudanças no mundo do trabalho e suas implicações para a saúde do trabalhador. A seguir são definidos os conceitos de lombalgia e ergonomia, a importância do conhecimento e aplicação de seus mecanismos como prevenção da lombalgia em trabalhadores de escritório. Os exercícios físicos fazem parte da discussão de outro item do artigo, bem como a necessidade de estratégias de prevenção da lombalgia nas organizações.

TRABALHO E SAÚDE DO TRABALHADOR

Mudanças sociais, econômicas, tecnológicas alteram a vida e o cotidiano das pessoas e também o trabalho1. Pode-se afirmar que sempre existiu uma estreita relação entre homem, trabalho e sociedade. Sempre foi do seu trabalho que o homem sobreviveu e a sociedade progrediu, mas desde os primórdios, o dia-a-dia no ambiente de trabalho não pára de mudar. No entanto, é na sociedade industrial que ocorrem mudanças significativas no mundo do trabalho. De acordo com Arruda, em meados do século XIX, com a crise do sistema feudal e a Revolução Industrial houve a consolidação de produção capitalista, pela qual, se caracteriza, dentre outros fenômenos, pela perda dos meios de produção pelos trabalhadores, a substituição das ferramentas manuais pelas máquinas e da energia humana pela mecânica. Após a segunda Guerra Mundial, ocorre o desenvolvimento de uma nova tecnologia industrial e de novos equipamentos, de novos processos industriais e a síntese de novos produtos químicos, estabelecendo cada vez mais uma inequívoca relação entre trabalho e saúde do trabalhador, dada às várias cargas físicas, químicas, biológicas, mecânicas, fisiológicas e psíquicas às quais fica submetido diariamente.

Essas transformações influenciam, sem dúvida, os serviços de saúde que assistem os trabalhadores e passam a preocupar a sociedade, o Estado e as empresas, dados os altos custos econômicos e sociais gerados pelas doenças ocupacionais, bem como os riscos à saúde física e psíquica do trabalhador.

Hoje há um progressivo aumento da mecanização e automação, com a adoção de serviços informatizados, envelhecimento da população trabalhadora, alterações nos hábitos e vida das pessoas, além aumento progressivo do trabalho feminino. Essas transformações evidenciam um novo paradigma de organização das relações econômicas, sociais e políticas1. A evolução tecnológica está presente em todas as esferas da produção, provocando alterações substantivas nas configurações industriais, nos padrões tecnológicos e no perfil das organizações. O mundo do trabalho encontra-se, portanto, sob um processo de reestruturação produtiva e organizacional estabelecendo novos cenários produtivos. Essa reestruturação pode ser identificada pela transformação das estruturas e estratégias empresariais, que alteram as formas de organização, gestão e controle do trabalho, que resultam em novas formas de competitividade, com repercussões no âmbito administrativo e operacional. Elas se manifestam pelas alterações na natureza do trabalho, inclusive aumentando a sua densidade, o ritmo e a ampliação da jornada de trabalho; na co-habitação da “velha” organização do trabalho com tecnologias gerenciais supostamente “modernizadoras”.

Pode-se afirmar que o avanço tecnológico foi benéfico no que se refere ao aumento da produtividade, segurança, melhoria da qualidade dos produtos e facilidade na execução dos serviços, no entanto, por outro lado, o trabalhador ficou sujeito às diversas conseqüências do no uso de tais ferramentas. Os movimentos repetitivos, no qual o trabalhador utiliza sempre os mesmos segmentos corporais contribuiu para o aumento das doenças do trabalho, específicas em cada categoria profissional, agravadas pelo sedentarismo, estresse e sobrecarga de atividade3.

As lombalgias, ou doenças da lombar são uma dessas lesões. As exigências físicas do trabalho são um fator de risco de lombalgia como, por exemplo, movimentação e levantamento de cargas, postura incorreta etc. Uma das atividades propícias para o aparecimento das lombalgias são aquelas desenvolvidas em escritórios. Neles, as pessoas passam grande parte do tempo sentadas, com a atenção e concentração voltadas à suas atividades e assumem uma postura corporal que prejudica a saúde. O aumento das lombalgias durante o trabalho em escritórios deve-se a vários fatores, como o uso do microcomputador com a postura incorreta, durante o tempo em que se está sentado, cadeiras ergonomicamente inadequadas e esteticamente imperfeitas ou mesmo falta de prevenção e pausas adequadas ao exercício das atividades profissionais.

De acordo com Iida2, o assento é provavelmente uma das invenções que mais contribui para modificar o comportamento humano. De fato, segundo o autor, a espécie humana, homo sapiens, já deixou de ser um animal ereto, homo eretus, para se tornar um homo sedam. As tecnologias do mundo moderno provocaram substantivas mudanças no comportamento humano, tornando o homem mais estático e sedentário. Essas mudanças estão provocando um enfraquecimento da estrutura sustentadora do homem, o que leva a uma grande sobrecarga, principalmente na coluna.

Vários dos problemas que afetam a realidade do trabalhador de escritório e causam as lombalgias podem ser evitados. No entanto, antes de proceder à discussão sobre a prevenção ergonômica em trabalhadores de escritório, faz-se necessária a definição das lombalgias.

LOMBALGIA

De acordo com Kendal, a dor lombar ou lombalgia é genericamente definida como intolerância à atividade devido a sintomas lombares associados à sintomatologia nos membros inferiores e pode ser classificada em aguda, sub-aguda ou crônica em virtude principalmente do fator tempo. Uma definição mais específica pode ser encontrada em Velloso. Segundo ele, define-se lombalgia como: uma sensação de dor ou rigidez localizada na localidade da coluna vertebral, situada acima das nádegas ou como dor secundária ao uso excessivo da estrutura anatômica normal, ou ainda, como dor secundária a trauma ou deformidade de estrutura anatômica.

Fisiologicamente a coluna apresenta a curva cervical, dorsal e lombar em posição ereta. A lordose lombar é provocada exatamente pelo esforço antigravitacional dos músculos eretores e da fraqueza da musculatura abdominal . Já as curvas secundárias são originadas da diferença nas espessuras anterior e posterior dos discos intervertebrais. Constitui parte funcional de extrema importância o disco vertebral constituído por um núcleo pulposo e um anel fibroso externo, cujas fibras se inserem nos corpos vertebrais superiores e inferiores. O núcleo pulposo é praticamente constituído de água e tem função na distribuição de força e na absorção do impacto. Além dos ossos e do disco, os músculos são essenciais na composição de postura e responsáveis pelo movimento da coluna9.

A dor lombar ou lombalgia apresenta uma elevada incidência e prevalência, que tem aumentando significativamente nos últimos anos10. A literatura específica demonstra que os episódios de dor lombar aguda afetam cerca de 80% da população em algum momento da sua vida. De acordo com Kewlsey et  all, a lombalgia constitui problema de saúde pública onipresente; é a doença mais comum no homem, perdendo apenas para os casos de resfriados. A idade média de aparecimento é ao redor dos 35 anos de idade, sendo menos incidente abaixo dos 20 anos e acima dos 60 anos, embora 25% das crianças apresentem dor na coluna em alguma época da idade escolar. A relação entre os sexos é igual, mas as mulheres se apresentam uma década mais tarde, na média.

É fundamental identificar os fatores de risco da lombalgia. Segundo Velloso8, eles incluem características ocupacionais ou psicológicas. As ocupacionais, de modo geral, são empregos que envolvam levantamento de peso acima da capacidade do empregado ou trabalho em posições inadequadas. Já os fatores psicológicos se associam, geralmente, a quadros depressivos. O consumo de cigarros e a obesidade também se associam ao risco de desenvolver dor na região lombar.

Ponte corrobora com Velloso. A autora considera que fatores mecânicos como posturas estáticas adaptadas no trabalho, vibração, tarefas repetitivas e condução prolongada são considerados fatores de risco. Os fatores psicológicos assumem relevância significativa como fator de risco para lombalgia porque contribui para a sua cronicidade. Vários estudos mostram uma associação entre fatores psicológicos/desordens psiquiátricas e lombalgia. Esses fatores psicológicos podem ser encarados como conseqüência, mas também como fator preditivo da lombalgia. Além desses, segundo a autora, fatores pessoais também devem considerados: a idade, o sexo, obesidade, hábitos tabágicos.

Miranda9 considera que as principais causas de dor lombar são: postura viciosa, aumento do peso corporal tais como obesidade, gravidez, ptose abdominal, o uso constante de saltos altos, desequilíbrios musculares, fraqueza dos músculos retroversores da pelve, aumento da tensão dos músculos psoas ilíaco, reto femoral, tensos da fáscia lata e eretores da espinha .

Os principais fatores envolvidos na “síndrome da dor lombar” são a fraqueza muscular, principalmente na região abdominal e a baixa flexibilidade articular no dorso e nos membros inferiores. No entanto, os fatores associados às atividades ocupacionais se apresentam como determinantes nas incidências de lombalgias. A má postura é um desses determinantes.

De acordo com Jesus, a postura de cada pessoa pode ser alterada por vários fatores, por exemplo:

  • Contratura fascial e musculotendinosa- A contratura das estruturas dos tecidos moles, especialmente a fáscia lata, músculos isquiotibiais, cápsula anterior do quadril e peitorais afetam a postura.
  • Força muscular- Particularmente importante é a força do glúteo máximo, músculos abdominais, eretores da coluna e adutores da escápula.
  • Inclinação pélvica- A pelve é a base sobre a qual repousa a coluna vertebral. Qualquer alteração correspondente na posição da quinta vértebra lombar em relação ao sacro, o que, a seu turno, altera a postura de toda a coluna. A inclinação da pelve é usualmente controlada pelos músculos situados próximos ao quadril. Ela é acentuada pela contração dos extensores do quadril; glúteos, isquiotibiais e porção posterior dos adutores dos quadris, e é diminuída pela contração dos flexores do quadril; iliopsoas, reto femoral, pectíneo e a porção mais anterior dos adutores do quadril. A coluna é fletida pelos músculos iliopsoas e abdominais e é estendida pelo eretor da coluna. Os músculos abdominais atuam sinergergicamente com os glúteos, o último diminuindo a inclinação pélvica e o primeiro reduzindo a lordose lombar. A mobilidade da coluna vertebral é maior na região lombar; na coluna torácica a rotação é de considerável magnitude, mas a flexão e a extensão são limitadas. Os músculos da respiração produzem um efeito secundário na postura por haver alguma extensão da coluna dorsal a cada inspiração.

A dor lombar pode surgir também em decorrência de movimentos comuns, após espirro, exercícios, esforços violentos, traumas ou até mesmo por causas extrínsecas não relacionadas com a coluna lombar. Segundo Netto, a lombalgia é um sintoma que pode estar relacionado a certas doenças e são poucos os pacientes que têm um diagnóstico definido durante a avaliação inicial. O exame clínico apresenta dor à palpação e à movimentação das cadeias musculares próximas à coluna vertebral. O paciente apresenta dificuldade em movimentar o tronco em direção aos joelhos estendidos e a dor piora no final da tarde, podendo se agravar com a movimentação excessiva ou o estresse emocional.

Pesquisas indicam que, entre trabalhadores de escritório, os usuários de computador parecem ter mais queixas físicas, relacionadas às suas ocupações. Em pesquisas publicadas tendo como amostra usuários de computador, aproximadamente 33% informaram problemas de saúde: a região lombar, pescoço e dor no ombro responderam por 66% das reclamações, enquanto mais de 50% reclamou de tensão nos olhos e aproximadamente 15% informou sobre problemas nos cotovelos e danos nos braços, atribuídos a movimentos repetitivos. Pode-se afirmar que os trabalhadores que usam a coluna como alavanca para levantar cargas e os que realizam trabalhos sedentários, ou seja, quase sempre relacionado com a postura sentada, apresentam uma prevalência maior de lombalgias. De fato, os fatores de natureza ergonômica e emocional são os que mais corroboram para acentuar o problema, pois muitas vezes os trabalhadores passam boa parte do tempo sentado em cadeiras mal projetadas, acrescido de mesas inadequadas o que contribui de maneira enfática para problemas de natureza músculo-esqueléticas. Pode-se afirmar ainda que em ambientes de trabalho como em escritórios incidem ainda tensões emocionais das mais variadas, provocadas pela competitividade, organizações rígidas, e, como já afirmado, cadeiras e mesas ergonomicamente inadequadas. Todas essas questões também colaboram para acentuar as dores, pela fadiga e tensão da musculatura paravertebral.

Pode-se concluir que a lombalgia é uma patologia do sistema músculo esquelético, que ocorre com freqüência entre pacientes em idade produtiva e tem causas múltiplas, mas que podem ser associadas invariavelmente ao local de trabalho8. Isto leva a um grande impacto sócio-econômico fazendo com que haja uma necessidade de incentivar os meios de prevenção como ergonomia e exercícios físicos com vistas a garantir uma melhor qualidade de vida, assuntos do próximo capítulo.

 ERGONOMIA E PREVENÇÃO À LOMBALGIA

4.1  Ergonomia: Conceito e Aplicação

O termo ergonomia é derivado das palavras gregas ergon, que significa trabalho e nomos, associado a regras. A Ergonomia pode ser entendida como o estudo científico da relação entre o homem e seu ambiente de trabalho, e tem sido aplicada em projetos de máquinas, equipamentos, produtos, sistemas e tarefas, com o objetivo de melhorar a segurança, saúde, conforto e eficiência dos trabalhadores.

A ergonomia é, portanto, um conjunto de ciências e tecnologias que procura através do seu desenvolvimento adaptar as condições de trabalho às características do ser humano. Ela tem por objetivo contribuir para solucionar muitas situações de trabalho, da vida cotidiana, da satisfação e o bem-estar dos trabalhadores no seu relacionamento com sistemas produtivos e, principalmente, um grande número de problemas sociais relacionados com a saúde, segurança, conforto, eficiência, prevenção de erros2.

A ergonomia surgiu em função do aumento da ocorrência de distúrbios de natureza física e psicológica em trabalhadores e desenvolveu-se durante a II Guerra Mundial como conseqüência do trabalho interdisciplinar de diversos profissionais das ciências tecnológicas e humanas2.  Duas principais abrangências da ergonomia para introduzir melhorias em situações de trabalho são: a) análise de sistemas – cuja preocupação é com o funcionamento global de uma equipe de trabalho usando uma ou mais máquinas. Nesta concepção, parte-se de aspectos mais gerais, como a distribuição de tarefas entre o homem e a máquina, mecanização de tarefas (informações captadas pela visão, audição e outros sentidos, controles, relações entre mostradores e controles, bem como cargos e tarefas e b) análise de postos de trabalho – que estuda uma parte do sistema onde atua um trabalhador e se faz a análise da tarefa, da postura e dos movimentos corporais (sentado, em pé, empurrando, puxando, e levantando pesos), como também fatores ambientais (ruídos, vibrações, iluminação, clima, agentes químicos).

Segundo Abrahão e Pinho, a ergonomia busca dois objetivos fundamentais. De um lado, produzir conhecimento sobre trabalho, as condições e a relação do homem com o trabalho, por outro, formular conhecimentos, ferramentas e princípios suscetíveis de orientar racionalmente a ação de transformação das condições de trabalho, tendo como perspectiva melhorar a relação homem-trabalho. Portanto, a produção do conhecimento e a racionalização da ação constituem, portanto, o eixo principal da pesquisa ergonômica.

De acordo com Prates, hoje existe uma preocupação em conhecer o homem para projetar-se o trabalho ajustando-o às capacidades e limitações humanas. Para tal, várias faces do comportamento humano são objeto de estudo da ergonomia:

· O Homem – suas características  físicas , psicológicas, sociais, idade, motivação.
· A Máquina – tudo em materiais que o homem utiliza em seu trabalho: equipamentos, ferramentas, mobiliários e instalações.
· O Ambiente Físico – (durante o trabalho) efeitos de luzes, ruídos, gases e outros.
· Informação – relacionamento entre os elementos de um sistema, transmissão e processamento de informações, até a tomada de decisões.
· Organização – A união dos elementos anteriores no sistema produtivo, engloba horários no sistema produtivo, turno de trabalho e formação de equipes.
· E, por fim, conseqüências do trabalho- ligados ao controle: tarefas de inspeções, registro de erros e acidentes, estudos sobre gastos energéticos, fadiga e estresse.

Ainda segundo Prates, pode-se classificar a análise ergonômica segundo a ocasião em que é feita:

· Ergonomia de Concepção – Ocorre na fase inicial do projeto do produto, máquina ou ambiente. Esta fase permite amplas alternativas. Exige conhecimento e experiência, porque suas decisões são feitas sobre hipóteses.
· Ergonomia de Correção – Aplicada em situações reais para solucionar questões de segurança e fadiga excessiva, doenças do trabalhador, quantidade e qualidade na produção. Determinadas medidas podem ter baixo custo e relativa facilidade, podendo exemplificar-se com mudanças de postura, colocação de dispositivos de segurança e aumento na iluminação, outras já podem ser mais complexas e de custo mais elevado como redução na carga mental ou de ruídos e substituição de máquinas inadequadas.
· Ergonomia de Conscientização: muitas vezes os problemas solucionam-se na fase de concepção e correção. Sendo um organismo vivo, os sistemas e os postos de trabalho, podem sofrer mudanças constantes, desgastes naturais de maquinários, tipos novos de produtos, os quais exigirão novos treinamentos, noções de risco, onde o trabalhador deverá saber como agir.

Por fim, de acordo com Abrahão e Pinho22, o desenvolvimento da metodologia da análise ergonômica do trabalho acompanha a evolução tecnológica perpassando por diversas fases em função da demanda social. Inicialmente centrada no fator humano, na adaptação do posto de trabalho, privilegiou apenas o estudo da relação homem/máquina. A partir da Segunda Guerra Mundial integra-se a análise outras variáveis tais como, a recepção, o tratamento e a transmissão da informação. Nesta fase, o trabalho passa a ser analisado considerando a sua dimensão cognitiva. A partir de meados da década de 80 a análise vai além da perspectiva do posto de trabalho incorporando a noção de complexidade do sistema no qual está inscrito. Nas situações de introdução de novas tecnologias, quando não se integra as exigências da atividade é comum encontrar inadequações no processo de trabalho. Estas inadequações criam exigências de natureza cognitiva que solicitam mecanismos distintos daqueles previstos anteriormente22.

Cabe, portanto, discutir o papel da ergonomia na prevenção de patologias associadas aos novos postos de trabalho, como são os casos das lombalgias

4.2 Ergonomia e prevenção de lombalgias

Segundo Martins e Duarte17, o trabalho não deve tornar-se o campo ideal para o desenvolvimento de patologias e angústias. A fim de auxiliar inúmeros trabalhadores, surgiu oficialmente, em 12 de julho de 1949, a ergonomia que configura, planeja e adapta o trabalho ao homem. Brito considera que dentre as preocupações das empresas na melhoria da qualidade e competitividade de seus produtos, a saúde ocupacional vem ganhando destaque nos últimos anos como conseqüência do aparecimento de índices preocupantes de distúrbios ocupacionais dos mais diferentes tipos.

A Norma regulamentadora número 7, NR7, é uma norma que abrange a área de Ergonomia e visa estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente e que regulamenta a ação do ergonomista. De fato, a existência dessa norma é um dos indicadores de que as relações de trabalho se modificaram e necessitam de novas intervenções e conhecimentos. 

Dentro das contribuições ergonômicas no ambiente de trabalho, Iida2 considera que as principais são: a) concepção – que ocorre durante a fase inicial de projeto do produto, da máquina ou do ambiente; b) correção – que é aplicada em situações reais, já existentes, para resolver problemas que se refletem na segurança, na fadiga excessiva, em doenças do trabalhador ou na quantidade e qualidade da produção e c) conscientização – que tem como foco conscientizar o trabalhador através de cursos de treinamento e freqüentes reciclagens, ensinando-o a trabalhar de forma segura, reconhecendo os fatores de risco que podem surgir, a qualquer momento, no ambiente de trabalho.

Segundo o autor2, uma segunda categoria de atuação está relacionada com os aspectos organizacionais do trabalho, ou seja, reduzir a fadiga e a monotonia, eliminação do trabalho altamente repetitivo, dos ritmos mecânicos impostos ao trabalhador e da falta de motivação provocada pela pouca participação do mesmo nas decisões sobre o seu próprio trabalho. 

No entanto, a realidade do trabalhador, muitas vezes é diferente. O trabalho sedentário e especializado, cuja atividade é a que mais cresce em países industrializados, requer concentração em sua execução, o que impõe ao corpo posturas paradoxais: enquanto segmentos corporais permanecem estáticos por longos períodos de tempo, como a coluna vertebral, outros como os membros superiores (braços) precisam realizar movimentos altamente repetitivos. Esse tipo de postura predispõe ao aparecimento de lesões.

A lombalgia, como visto, é a que apresenta maior incidência. Hoje se faz fundamental, face às mudanças no mundo do trabalho, promover e manter saúde, centrando as atenções em impedir que as alterações posturais e lesões ocupacionais ocorram. Portanto, uns dos principais objetos de interesse da prevenção são as situações de risco, as situações potencialmente lesivas, ou seja, os movimentos, posturas, enfim toda e qualquer posição que possa promover ou facilitar o aparecimento dos distúrbios ocupacionais (LER – a lesão por esforço repetitivo – atualmente designadas DORT – distúrbios osteo-musculoligamentares

relacionados ao trabalho). Aliar as alterações ergonômicas ao local de trabalho produz certamente um ambiente mais saudável e agradável e tem como conseqüência o aumento da produtividade. Devem-se aliar as alterações ergonômicas no local de trabalho com as orientações relativas à prevenção de distúrbios ocupacionais: adequação postural, distensionamento das articulações (alongamento), bombeamento sanguíneo dos braços, retorno venoso das pernas, entre outros26.

A postura, entre os trabalhadores de escritório, é um dos principais fatores associados à incidência da lombalgia. Para profissionais que trabalham com computador, por exemplo, a postura sentada ergonomicamente correta considerada atualmente é: pescoço na posição neutra com campo visual de 15 a 30 graus abaixo da borda superior da tela do computador e distante do operador 40 a 70 cm; flexão de quadril em torno dos 100 a 110 graus proporcionando a acomodação dos ísquios, e de joelhos de 90 a 120 graus; membros superiores na posição vertical e alinhados ao tronco, formando um ângulo de 90 a 110 graus de cotovelo; punhos em alinhamento com os antebraços e mãos alinhadas com o punho (evitar a extensão de dedos durante a digitação.

A postura sentada, mesmo seguindo todas as orientações posturais, acarreta uma carga biomecânica significativa sobre os discos intervertebrais principalmente na região lombar. Quando o trabalho possibilita pouca margem para movimentação tem como conseqüência carga estática sobre certos segmentos corporais, que embora não intensa é contínua e associada à inércia musculoligamentar. Além de o colaborador adquirir uma postura correta de trabalho, ele deve também realizar as pausas para a descompressão das articulações e quebra da monotonia melhorando o rendimento intelectual27.

Assim, fatores como tipo e altura de assento, das mesas, do teclado, espaço para movimentação, postura, dentre outros, são de extrema importância para se evitar a lombalgia. Portanto, faz-se necessária a aquisição, por parte da empresa, de móveis e equipamentos ergonomicamente projetados, com vistas à prevenção dos riscos à saúde do trabalhador. Rio Considera que se faz necessária também a troca das cadeiras do setor por cadeiras ergonômicas, com bordas anteriores arredondadas, regulagem de altura do assento e do encosto, acolchoadas e com boa estabilidade, colocação de um suporte para o monitor de cada funcionário para que fiquem na linha de visão sem esforço para os olhos e pescoço, troca de local do mouse pad para mais perto do funcionário e adaptação de apoio no punho para diminuir a pressão nos tendões, fator este importante causador de DORT. O controlador da máquina a laser, por exemplo, necessita de uma cadeira ergonômica industrial para que possa visualizar a máquina superiormente e obter uma postura correta, com apoio de lombar e pernas.

Por fim, a ergonomia, segundo Gonçalves, vem dando importante contribuição para a melhoria das condições de trabalho. Entretanto, nem sempre isso é possível na prática, em função de inúmeras dificuldades, como insuficiência técnica ou mesmo falta de conscientização por parte dos funcionários. Essa política, precisa, necessariamente, conscientizar os indivíduos sobre sua responsabilidade pessoa pela manutenção da própria saúde. Em relação ao tratamento da lombalgia, existem intervenções curativas, terapêuticas e preventivas. Na área médica, por exemplo, existem as cirurgias ou mesmo técnicas minimamente invasivas como a fisioterapia, o alongamento etc. Mas, sem dúvida, há a necessidade implícita de tratamentos que atuem de forma preventiva, como é a proposta da ergonomia. Os exercícios físicos, associados à ergonomia, são também imprescindíveis aliados na prevenção da lombalgia.

4.3 A importância de exercícios físicos associados à ergonomia na prevenção da lombalgia

A falta de atividade física ou sedentarismo constitui fator de risco para o aumento de doenças cardiovasculares e também complica sem dúvida, as doenças das articulações, músculos e coluna vertebral. As atividades realizadas em escritório contribuem sem dúvida para o comportamento sedentário, já que solicita do ser humano um padrão postural constantemente sentado.

Atualmente, existem práticas de atividade físicas que auxiliam na prevenção de doenças ocupacionais. Pode-se citar a ginástica laboral (GL), técnicas de alongamentos posturais, dentre outras. Lima conceitua a GL como “a prática de exercícios, realizada coletivamente, durante a jornada de trabalho, prescrita de acordo com a função exercida pelo trabalhador, tendo como finalidade a prevenção de doenças ocupacionais, promovendo o bem-estar individual, por intermédio da consciência corporal…”.

A atividade física proporciona benefícios, tanto para o trabalhador, quanto para a empresa. No entanto, de acordo com Walters, apenas um aspecto, quando tratado isoladamente, não surtirá o efeito necessário. Mas sim, um conjunto de melhorias deve ser adotado, que incluem modificação do processo de trabalho, instituição de revezamentos ou rodízios, realização de análises ergonômicas dos postos de trabalho e adequação dos instrumentos ou equipamentos de trabalho. Por fim, acredita-se, a prevenção é um fator primordial no atual mercado de trabalho, propenso à incidência de lombalgias e outras doenças ocupacionais. Portanto, a aliança entre ergonomia e atividade física se torna um instrumento eficaz para promover a saúde do trabalhador.

CONCLUSÃO

Face às imensas mudanças societárias com conseqüências visíveis para o trabalho, é de fundamental importância o conhecimento e aplicação da ergonomia na empresas. O investimento na qualidade de trabalho para os colaboradores permite, sem dúvida, uma maior produtividade, satisfação e, principalmente, previne o aparecimento das Dorts, especificamente das lombalgias, que, como visto, apresenta intensa incidência nos profissionais. As questões aqui discutidas acreditam-se, são de grande relevância, visto que um planejamento ergonômico eficaz, bem como a associação a exercícios físicos, sempre que possível, promoverão, sem dúvida, a prevenção dos distúrbios ocupacionais.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASTOS, A. V. B. Mudanças Tecnológicas, Cultura e Indivíduo nas Organizações: O desafio de construir sistemas de trabalho de alto desempenho. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, 13 (3): 317-327, set-dez, 1997

IIDA, Itiro. Ergonomia: projeto e produção. 5ª reimpressão. São Paulo: Editora Edgard Blücher, 1998

DIASCÂNIO, José Maurício. Ginástica laboral em postos de trabalho com computadores. Primeira Jornada de Ergonomia. 16 a 17 de setembro, Juiz de Fora, Minas Gerais, 2008

PRATES, Gláucia aparecida. Reflexão sobre o uso da ergonomia aliada à tecnologia: propulsores do aumento da produtividade e da qualidade de vida no trabalho. RACRE – Revista de Administração, Esp. Sto. do Pinhal – SP, v. 07, n. 11, jan./dez.2007

GRECO, Rosângela Maria. Trabalho e Saúde: dois lados da mesma Moeda. Revista de APS – Atenção Primária à Saúde. Ano 2 Nº 6 Jul a Nov, 2000.

FERNANDES, Rita de Cássia Pereira. CARVALHO, Doença do disco intervertebral em trabalhadores da perfuração de petróleo. Cadernos de Saúde Pública, vol.16 – n.3, Rio de Janeiro Júlio/Setembro, 2000

KENDALL, N.; LINTON, S.; MAIN, C. Guide to assessing psychosocial yellow flags in acute low back: risk factors for long-term disability and work loss. Wellington, New Zealand: Accident Rehabilitation & compensation insurance corporation of New Zealand, and the National Health Committee, Ministry of Health. 1997

VELLOSO, Gustavo. Lombalgia: incidência, sintomas e diagnóstico. Universitas Ciências da Saúde. Vol. 02 nº 2 – PP.252-257

MIRANDA, E. Bases de Anatomia e Cinesiologia 2a edição Editora Sprint 2000

WADDELL G. The Low Back Pain Revolution. 2ª edição, Churchill Livingstone. 2004

KEWLSEY, J. L et all. Epidemiolog of back pain. Spine S. 133, 1998

N A S. H. – Manual do Residente em Ortopedia 1a edição editora Revinter 1995

PONTE, Carla. Lombalgia em cuidados de saúde primários. Sua relação com características sócio-demográficas. Revista Port. Clinica Geral, 2005

JESUS, Gisele Torres. Causas da Lombalgia em grupos de pessoas secundárias e praticantes de atividades físicas. Revista digital – Buenos Aires, ano 10 – nº 92 – enero de 2002

LEITÃO, A.; LEITÃO, A.V.-Clínica de Reabilitação 1a edição editora Atheneu 1997

NETO, José Marques. Lombalgia: a vilã da atividade física. Revista superação Ed. 17

MARTINS, Caroline de Oliveira. DUARTE, Maria de Fátima da Silva. Efeitos da ginástica laboral em servidores da Reitoria da UFSC. Revista Brasileira de Ciência e Mov. Brasília vol 8, nº 4, p. 07-13, set, 2000

SANTOS, Josenei Braga. Programa de exercício físico na empresa: um estudo com trabalhadores de um centro de informática. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2003

PALMER, C. Ergonomia. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1976

BARRETO, Sidirley de Jesus. GRANDO, Karla.  Estudo sobre a importância da ergomotricidade na prevenção de doenças ocupacionais em servidores da Universidade Regional de Blumenau. (Laboratório de Ergonomia, Higiene e Segurança no trabalho, Departamento de Educação Física e Desporto, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Regional de Blumenau)

DUL, J.; NEERDMEESTER, B. Ergonomia Prática. São Paulo: Edgard Blücher, 1995

ABRAHÃO, Júlia I. PINHO, Diana. As transformações do trabalho e desafios teóricos e metodológicos da ergonomia. Estudos de Psicologia, volume 7, nº especial, Janeiro/2002, Natal (ISSN 1413-29x

PRATES, Gláucia Aparecida. Reflexão sobre o uso da ergonomia aliado à tecnologia: propulsores do aumento da produtividade e da qualidade de vida no trabalho. RACRE – Revista de Administração, Esp. Sto. do Pinhal – SP, v. 07, n. 11, jan./dez, 2007

BRITO, Thatiana Prado. Análise ergonômica do trabalho em uma empresa beneficiadora de acrílicos na região de Joinville-SC

http://www.mte.gov.br/legislacao/normas_regulamentadoras/nr_17.asp

COURY, H.J.C. Perspectivas e Requisitos para a Atuação Preventiva da Fisioterapia nas Lesões Músculo Esqueléticas. Fisioterapia em Movimento,vol. V, Out 1992/Mar 1993, p. 63

RIO, Rodrigo Pires do; PIRES, Licínia. Ergonomia – fundamentos da prática ergonômica. Belo Horizonte:Health, 1999

BAU, Lucy Maria Silva. Intervenção ergonômica e fisioterápica como fator de redução de queixas músculo-esqueléticas em bancários. Tese de Mestrado UFRS – Porto Alegre, 2005

GONÇALVES, c. f. Ergonomia e qualidade do serviço bancário: uma metodologia de avaliação. Tese de doutorado. UFSC, 1995

WETLER, Elaine Cristine Barbosa. Efeitos de um programa postural sobre indivíduos com hérnia de disco lombar. Dissertação de Mestrado. UNB, 2004

KARJALAINEN, K et al. Light exercise for the spine. Mar, 2003

BARROS NETO, T.L. Fisiologia do exercício aplicado ao sistema cardiovascular. Ver. Soc. Cardiovascular. Estado de são Paulo, vol. 6, 1996

LIMA DG.Ginástica laboral: metodologia de implantação de programas com abordagem  ergonômica. Jundiaí, SP:Fontoura, 2004.

WALTERS R.Avaliação física: pesquisa revela as conseqüências psíquicas e corporais que a ginástica traz para prevenção de doenças. Proteção 1997: 46-8



Conteúdo Relacionado

Some Toughts (2)

  1. Aline Aparecida Felicio
    added on 6 jun, 2018
    Responder

    Gostaria de saber, por gentileza, a data do artigo “A IMPORTÂNCIA DA PREVENÇÃO ERGONÔMICA NA LOMBALGIA EM TRABALHADORES DE ESCRITÓRIO”, para que eu possa citar em meu TCC, que fala sobre a lombalgia ocupacional.

    • interfisio
      interfisio
      added on 8 jun, 2018
      Responder

      Olá Aline, obrigado pela sua visita. O artigo foi publicado no dia 28/04/2009.

      Abraços e boa sorte no TCC! 😉

Adicione seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

×
Olá! Seja bem-vindo(a). Se tiver alguma dúvida, me procure. Estou a disposição para te ajudar.