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A Atuação da Fisioterapia no Tratamento da Incontinência Fecal

A Atuação da Fisioterapia no Tratamento da Incontinência Fecal

INTRODUÇÃO
A incontinência fecal (IF) representa um problema social e afeta significativamente à vida do paciente, podendo ser uma condição incapacitante que, geralmente, leva ao isolamento social. É caracterizada pela incapacidade de manter a continência do material fecal, fezes (líquidas ou sólidas) e/ou flatos, no canal anal, em local e tempo socialmente inadequado (3, 22, 20).
Trata-se de uma alteração funcional, multifatorial, comum na população,com incidência estimada entre 0,1% a 5% a partir da fase adulta, porém essa incidência é subestimada, pois muitos autores relacionam a doença com o envelhecimento e, por esse motivo, a incidência dos casos relacionados com idosos é pouco descrita por ser considerada uma consequência natural do envelhecimento e, portanto, deixa de ser um problema de saúde, infelizmente.Porém sabe-se quea frequência e a gravidade dos sintomas estão intimamente relacionadas ao aumento da idade e acima de 75 anos, a IF passa a apresentar-se de forma mais grave (3, 22).
Outro fator que dificulta a contabilidade dos casos de IF é o fato dos pacientes terem vergonha de relatar o seu problema. Dentro da população idosa, as mulheres são mais afetadas, por ser uma condição multifatorial, assim como é o caso da incontinência urinária.
Mas a população feminina pode ser acometida, principalmente, no pós-natal. Observa-se um aumento dos casos de IF, após o parto vaginal, podendo variar de perdas ligeiras de gases a perdas severas de fezes líquidas ou sólidas (22).
Os pacientes manifestam sintomas de incontinência para flatos, fezes líquidas ou fezes sólidas. Em alguns pacientes, apenas um acidente pode afetar negativamente a sua qualidade de vida diária e limitar a sua capacidade de interagir socialmente devido ao medo e constrangimento. Os pacientes muitas das vezes apresentam insegurança, perda da
autoestima, angústia, sintomas depressivos, transtornos mentais e sociais, piorando ainda mais a qualidade de vida do paciente e familiar, tornando a IF um problema social, e de grande impacto socioeconômico, pois também é a causa da necessidade de hospitalização de idosos, além dos gastos com fraldas e/ou absorventes geriátricos (13).
Vários sistemas de pontuação foram criados e validados para ajudar os pacientes e os profissionais da área de saúde a quantificar e avaliar a gravidade dos sintomas e os efeitos da IF nas atividades de vida diárias. Os sinais e sintomas avaliados estão relacionados a frequência e duração das perdas, a consistência das fezes, flatulência e uso de protetores higiênicos. E os sistemas de pontuações para quantificar o grau de força muscular do paciente, também são utilizados para avaliar a musculatura do períneo. Essas pontuações são usadas para planejar estratégias de tratamento e pelos pesquisadores para estudar os resultados de tratamentos para IF (13, 22, 2).
A IF pode ser classificada desde a fuga involuntária de gases à perda de fezes sólidas. Sendo assim, de acordo com o tipo de material perdido (líquido, pastoso, sólido e/ou flatos) e ainda, acrescenta-se a classificação quanto à característica, incontinência sensorial/ passiva ou motora/ urgência ou mista, quando há a combinação das duas formas de incontinência (2, 22). A continência fecal é o resultado das atividades coordenadas do reto e dos esfíncteres anais e dos músculos do assoalho pélvico, ou seja, elevador do ânus (puborretal, pubococcígeo, iliococcígeo) e o coccígeo (isquiococcígeo), e qualquer alteração nesse sistema complexo, pode-se originar a incontinência e o paciente necessita de tratamento.

O tratamento da IF tem por objetivo básico a restauração da continência. Para tal, o tratamento é priorizado com métodos conservadores (medicamentoso, reeducação alimentar e fisioterapia) e quando há falhas desses métodos, é recomendada a cirurgia (22, 13).
A atuação da fisioterapia visa recuperar, aumentar e coordenar a capacidade contrátil da musculatura do assoalho pélvico (MAP), aumentar a propriocepção perineal e, consequentemente, o controle voluntário do esfíncter anal externo. O tratamento é realizado através de técnicas conservadoras de reabilitação do assoalho pélvico, através do treinamento dos músculos do assoalho pélvico, utiliza-se o treinamento com biofeedback e a eletroestimulação (22, 2, 23).

Vários tratamentos têm sido desenvolvidos para IF, e muitos demostram eficácia consistente, tornando a abordagem da fisioterapia necessária e confiável, por retardar ou até mesmo evitar o processo cirúrgico, estudos com enfoque na IF em indivíduos adultos têm sido descritos, porém, trabalhos reunindo e sintetizando a atuação da fisioterapia nos pacientes com diagnóstico de IF na literatura atual, são escassos. (13, 22, 3).
Portanto, este trabalho tem por objetivo reunir e sintetizar os principais recursos fisioterapêuticos utilizados para o tratamento da IF, bem como seus resultados através da revisão bibliográfica de artigos científicos.

MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um estudo de revisão integrativa de literatura, realizada nas bases de dados multidisciplinares e nas bases específicas da área de saúde no período de dezembro de 2015 à outubro de 2018. As bases de dados utilizadas foram: PubMed, LILACS e PEDro.  Como critério de inclusão foram selecionados artigos científicos de revistas indexadas das  bases supracitadas em inglês, espanhol e português, que abrangem o período de janeiro de 2011 à outubro de 2018. Foram levantados artigos de ensaio clínico randomizado, abordando métodos fisioterapêuticos para o tratamento de pacientes com diagnóstico de incontinência fecal. Como critério de exclusão, retiramos os artigos científicos nos demais idiomas, revisões de todos os tipos, além de outros tipos de artigos que diferenciam de ensaios clínicos randomizados. Estudos realizados em crianças, adolescentes e animais, e artigos científicos que abordem outros temas, como tratamentos utilizando a neuromodulação percutânea sacral e acupuntura.
Foi utilizado o portal DeCS/MESH, para a busca dos descritores. O descritor principal utilizado foi: “fecal incontinence” (incontinência fecal). As combinações utilizadas foram: “fecal incontinence” and “physiotherapy” e “fecal Incontinence” and “Physical Therapy Modalities”.

RESULTADOS
Foram encontrados 174 artigos científicos nas bases de dados. A pesquisa realizada na base de dados PeDro com o seguinte descritor, “Fecal incontinence”, foi encontrado 47 artigos sendo selecionados dois. No PubMed, com a seguinte combinação, “Fecal Incontinence” and “physiotherapy”, foram encontrados 67 artigos e deste, dois foram selecionados. Novamente no PubMed, com a combinação “Fecal Incontinence” and “Physical Therapy Modalities”,
foram encontrados 53 artigos e nenhum selecionado. Por fim, na base de dados LILACS, foram utilizados os descritores: “Fecal Incontinence” and “physiotherapy” e “Fecal Incontinence” and “Physical Therapy Modalities”, encontramos quatro e três artigos, respectivamente, sendo nenhum deles utilizados. Retirados os artigos que não foram aceitos para esta revisão, foram selecionados quatro artigos que abordam o tema que estão descritos abaixo.
No estudo (9), o objetivo foi determinar se a associação de um tratamento médico padrão com o treinamento perineal é/pode ser mais eficaz do que apenas o tratamento médico padrão. A pesquisa contou com dois grupos, sendo um controle e outro tratamento, no grupo controle, a amostra foi de 75 pacientes, e no grupo tratamento, tiveram 67 pacientes, ambos os grupos tinham prevalência feminina, com idade média de 60 anos. O protocolo de tratamento médico padrão foram recomendações dietéticas e tratamento medicamentoso para controlar os movimentos intestinais com doses de laxantes e loperamida. O protocolo utilizado no grupo tratamento, contou com 20 sessões de 30 minutos, no período de quatro meses e a freqüência semanal de duas a três sessões, no primeiro mês, e após de uma a duas sessões semanais, sendo as primeiras cinco sessões dedicadas à terapia comportamental e relaxamento anal, posicionamento evacuatório e pressão de compressão leve. A conduta utilizada foi treinamento dos músculos do assoalho pélvico e treinamento muscular abdominal, biofeedback eletromiográfico e exercícios respiratórios. O método de avaliação utilizou o teste de sensibilidade, com: distensão isovolumétrica retal, com intuito de diminuir o primeiro limiar de sensibilidade para intervalos normais; questionário CCFI (maior ou igual a 5);
validated constipation score (KESS); fecal incontinence quality of life scale (FIQL) e nonspecifie quality of life scale (SF12). A pontuação de auto-avaliação da melhora clínica variava em -5 (grave) a 5 (melhora significativa) e 0 (nenhuma alteração). O resultado satisfatório foi pré – definido com uma classificação ≤ 3 (P ≤ 0,05). Após quatro meses, a taxa de sucesso (≤ 3) era significativamente maior no grupo tratamento (57% versus 37%; p <0,021) as variáveis; freqüência de evacuação; vazamento e urgência fecal diminuíram significativamente no grupo tratamento, porém os grupos não diferiram, nos escores sintomáticos e escalas de qualidade de vida.
Na pesquisa (6), o objetivo foi avaliar a eficácia do treinamento com balão retal como uma terapia adicional para o treinamento muscular do assoalho pélvico em adultos com incontinência fecal. O estudo contou com dois grupos, sendo o tratamento, balão retal associado ao treinamento muscular do assoalho pélvico, com 40 pacientes, com idade média de 58 anos e o grupo de treinamento do assoalho pélvico, também com 40 pacientes e idade média de 60 anos. Ambos os grupos tiveram prevalência de 90% de mulheres. Foram incluídos pacientes com incontinência por mais de seis meses, com escala Vaizey ≥ 12, e falha de medidas dietéticas e medicamentosas, além de pacientes com menor sujidade, desde que não fosse devido ao transbordamento. O estudo foi realizado no período de nove semanas, o máximo de 12 sessões com duração de 35 a 45 minutos. O balão retal tinha como objetivo avaliar o limiar sensorial retal, a sensação de urgência fecal e o volume retal máximo tolerado.
O protocolo de treinamento dos músculos de assoalho pélvico era realizado em três séries de 8 a 12 repetições de contrações máximas e mantinham por 1 a 3 segundos, após aumentavam para 6 a 8 segundos. As contrações submáximas eram mantidas por 30 segundos, sendo três repetições, ambos os exercícios com um minuto de repouso entre cada repetição. Os pacientes foram orientados a realizar os mesmos exercícios em casa três vezes ao dia. Os autores utilizaram na avaliação a classificação Vaizey; Incontinência Fecal Escala de Qualidade de Vida (FIQL); Escala GPE de nove pontos (global perceived effect); Manometria anorretal; Classificação de Oxford; foi avaliada também a resistência; o limiar sensorial, a sensação de urgência e o volume máximo tolerado (P≤0,05). O resultado do grupo tratamento obteve melhora nas seguintes variáveis: média GPE (P = 0,008); estilo de vida do FIQL (P = 0,04); volume máximo tolerável (P = 0,009) e fadiga do esfíncter anal externo (P = 0,001). Também houve diferença na pontuação Vaizey, porém não foi significativa. Não foram encontradas diferenças significativas na pontuação total FIQL, na pressão de repouso, pressão de contração, limiares de sensação anorretal, os volumes distensão retal e sensação de urgência, pontuação Oxford do esfíncter anal externo e do assoalho pélvico, a resistência do esfíncter anal externo, ou de resistência e fadiga do assoalho pélvico. Os autores descrevem que seis pacientes do grupo tratamento e dois do grupo controle relataram continência completa para flatos, líquidos e fezes sólidas e 11 pacientes do grupo tratamento e cinco do grupo controle relataram continência completa para fezes líquidas e sólidas.
No estudo (7), o objetivo foi investigar os mecanismos envolvidos no efeito do TENS na função anorretal. A pesquisa contou com o grupo TENS, com 10 pacientes de idade média de 63,5 anos, no grupo placebo a amostra era de nove pacientes com idade média de 66,1 anos.
Foram incluiu pacientes com vazamento de fezes sólidas e/ou líquidas por pelo menos uma vez por semana, com pontuação ≥ 8 da CCF-FI, e falha de medidas dietéticas e medicamentosas. Ambos os grupos fizeram enema 2h antes do tratamento. O estudo teve duração de cinco meses. O protocolo de eletroestimulação foi realizado com eletrodos de superfície auto-adesivo, os elétrodos foram posicionados na região posterior do maléolo medial e o outro 10 cm acima, a intensidade foi abaixo do limiar de sensação, a frequência de 10 Hz e a largura de pulso de 200 ms. Em ambos os grupos, a estimulação foi aplicado antes da distensão. O método de avaliação utilizou a escala Cleveland Clinic Florida-fecal pontuação Incontinência (CCF-FI); Escala de qualidade de vida (GIQLI) e o exame físico foi realizado através da manometria anal, distensão retal (barostato), e US endoanal. Os parâmetros analizados foram pressão máxima retal; volume máximo retal; volume relacionado com a complacência; volume relacionado com tônus e sensação de intensidade (p≤0,05). Não houve alterações significativas nas pressões do canal anal. O grupo TENS obteve uma elevação significativa na pressão máxima retal e variação do volume retal e está diretamente relacionada a uma maior distensão retal. Não houve diferença significativa na variável complacência retal do grupo TENS e a sensação de defecação e dor, alterou significativamente, com níveis crescentes de distensão retal.
Na pesquisa (8), o objetivo foi comparar se a eletroestimulação feita em casa, iria melhorar os sintomas da incontinência e dos flatos, e se seria equivalente ou superior ao treinamento com balão retal, e se o custo seria menor. A amostra do estudo foi dividida em grupo tratamento (estimulação elétrica) com 18 pacientes com idade média de 66,6 anos e o grupo controle com 18 pacientes de idade média de 68,3 anos. Foram incluídas mulheres com IF crônica, e com cólon normal, avaliado pelo exame de colonoscopia e esfíncteres anais intactas, confirmados pelos US endoanal, preliminarmente. O estudo foi realizado em seis semanas. O protocolo do grupo tratamento foi orientado a utilizar o aparelho pré – programado por 25 minutos duas vezes ao dia, junto com um eletrodo anal, a fim de fortalecer a MAP. A estimulação elétrica foi fixada com: freqüência de 50 Hz; largura de pulso de 200 ms; RISE de 1 s; ON T. de 8 s; DECAY de 1 s e OFF T. de 20 segundos. No grupo controle, a sessão durou de 30 a 45 min, os pacientes receberam treinamento eletromiográfico e do biofeedback de pressão usando um cateter anal e um balão retal insuflado ao limiar sensorial anal. Foram prescritos exercícios para praticar em casa, duas vezes ao dia, sendo três séries de 10 contrações, sustentadas por 10 segundos cada e repouso de cinco minutos entre cada série. Os parâmetros avaliados no estudo foram grau de melhora da: frequência fecal (sólidos e líquidos), incontinência de gás (média da pontuação VAS); VIS (pontuação da gravidade); níveis de ansiedade dos indivíduos; melhora da força muscular, avaliada por EMG de superfície e grau de redução de custos em ambos os grupos. A redução de custo foi considerada positiva se foi alcançada uma redução > 50%. O resultado do grupo tratamento obteve melhora significativa na pontuação da VAS (IF sólida) e a VIS, diminuiu significativamente no grupo HES, indicando melhora clínica. Para ambos os grupos, a média dos escores de força muscular, melhorou significativamente e o grupo tratamento apresentou menor custo do que o TTO com TBP ($100 vs. 220, respectivamente).

DISCUSSÃO
A incontinência fecal (IF) é uma alteração funcional, multifatorial, descrita como a perda involuntária de conteúdo fecal, sólido ou líquido pelo canal anal (ânus), em local e tempo socialmente inadequado, com incidência estimada entre 0,1% a 5% a partir da fase adulta, atingindo as mulheres, principalmente, após a gravidez e na maioria dos casos, os idosos (6, 3).
Os autores revisados neste estudo utilizaram como critério de inclusão a faixa etária de 18 – 85 anos, porém a idade média para ambos os estudos foi aproximadamente 60 – 65 anos e, somente (8) propuseram a idade limite de 75 anos. (6) explicam que a IF pode ser um processo natural de envelhecimento (senescência), por estar relacionada com a sarcopenia.
A IF atinge o paciente na redução da qualidade de vida e também no âmbito socioeconômico, impactando tanto na vida social, fazendo com que ele evite o lazer por medo de se sujar, quanto no emocional, ocasionando em depressão. No estudo (8) os autores optaram por utilizar a escala de depressão HADS (30), para avaliar o nível de ansiedade ou depressão dos pacientes investigados. Dois autores (5, 9) utilizaram a escala FIQL (Fecal Incontinence Quality of Life) e outro autor (7) utilizou a escala GIQLI (Gastrointestinal Quality of Life Index.).
A IF acomete mais a população feminina. Muitos autores relacionam esse dado com o número de gestações e partos vaginais, que pode estar relacionado à maior incidência de trauma obstétrico perineal e consequentemente a disfunção do AP (1). O estudo (8) foi o único que selecionou somente pacientes do sexo feminino. Nos demais artigos, a prevalência do sexo feminino era de 90%. Os autores do estudo (8) selecionaram 80 pacientes com IF crônica, e avaliaram a integridade do cólon, pelo exame de colonoscopia, e a integridade dos esfíncteres anais, avaliado pelo US endoanal, essas estruturas precisavam estar íntegras para que as pacientes fossem escolhidas. O esfíncter anal íntegro, está relacionado com melhores resultados após o uso do BFB(9).
A avaliação dos pacientes incontinentes consiste em uma minuciosa história clínica e exame físico. As medidas de classificação da IF, utilizada pelos autores, não deferiram entre si. Os estudos (6, 8) aplicaram a escala Vaizey e, os autores (9, 7) optaram pela escala CCFI (Cleveland Clinic Fecal Incontinence score). Essas escalas permitem avaliar o grau de incontinência e então classificar a gravidade da IF (18, 29), avaliam alguns itens, como: frequência de evacuações diárias e duração das perdas (vazamento e urgência fecal), consistência das fezes, flatulência e constipação e uso de proteção. Uma sugestão (20) é a utilização das escalas, mesmo sendo uma avaliação subjetiva, têm auxiliado na classificação de gravidade e, desse modo, no encaminhamento dos pacientes para diferentes tipos de tratamento.
O exame físico (12, 20) tem por finalidade avaliar o tônus, força, resistência, elasticidade e as pressões anais em repouso e as pressões durante a contração. No estudo (8) optaram por registrar a atividade muscular pelo EMG de superfície intraanal, o EMG tem como objetivo o registro da atividade elétrica da MAP (8, 16, 20), determinar sinais de desenervação e até a contração incorreta do músculo puborretal. Os pacientes foram orientados a contrair a MAP com força máxima, e uma pontuação > 4 foi considerada um bom nível de pressão da contração voluntária da MAP. Já no estudo(9), os autores utilizaram a manometria anorretal, porém preferiram não levar em conta o efeito do TTO nos resultados manométricos. Para isso, optaram pelas escalas e diários, que são métodos de avaliação subjetiva (29), para avaliar os efeitos do TTO. No exame inicial, foi realizado a manometria anorretal e o US endoanal. A razão pelo qual o estudo não levou em conta o efeito do tratamento nos resultados manométricos anorretais foi porque a medição não parecem ser suficientemente sensível para detectar um efeito de tratamento sustentado (9). Isso diverge da explicação (20) que cita a monometria anorretal como um método eficaz na avaliação da IF, pois permiti a mensuração das pressões anais de repouso, de contração voluntária, além da atividade reflexa da capacidade e complacência retal e a sensibilidade retal, obtendo resultados fidedignos. Autores (6) utilizaram a manometria anorretal e o toque retal, além da US endoanal e a decografia. Já outros (7) aplicaram em seus pacientes, além da manometria anorretal e do US endoanal, a distensão barostática durante as sessões de TTO para avaliar as alterações retais.
O barostato mantinha uma pressão constante no reto e, quando a musculatura retal relaxava, aumentava – se o volume interno (7). As distensões foram realizadas com sucessivos níveis ascendentes de pressão e cada nível de pressão era mantido por 60s. Por fim, a distensão era interrompida quando o paciente relatva dor ou o procedimento alcançava uma pressão barostática acima de 60 mmHg (7).
O tratamento da IF tem por objetivo restaurar a continência. Para isso, o tratamento é priorizado com métodos conservadores (medicação, reeducação alimentar e fisioterapia) e para alguns casos, é necessário o tratamento cirúrgico (13, 14, 22, 25). Os estudos analisados nesta revisão aplicaram como critérios de exclusão falhas de tratamentos medicamentosos, alimentares e pacientes com indicação cirúrgica e somente o estudo (9) utilizou em ambos os grupos o “tratamento médico padrão”, que se baseia em recomendações dietéticas e doses de laxantes e loperamida para controlar os movimentos intestinais. Este estudo (9) indica que o treinamento perineal aumenta a eficácia do tratamento da IF em comparação com o tratamento médico padrão sozinho.
O protocolo utilizado pelos autores era composto de técnicas manuais, BFB com dispositivo anal e respiração abdominal para o aumento da coordenação das contrações anais voluntárias, abdominal e pélvica (9). Os exercícios eram intercalados de contrações contínuas (fibras tônicas) e contrações rápidas (fibras fásicas) (17), usando um dispositivo de biofeedback. Cada série de contrações era intercalada por um período de repouso duas vezes maior que o período de contração (repouso > contração). Os autores se basearam no protocolo utilizado por (16) que
propuseram um número de 50 contrações máximas de longa duração e 50 contrações máximas de curta duração por dia. Além disso, os pacientes eram assistidos com o BFB a fim de ensinar o paciente o aumento da sensibilidade em resposta a distensão retal e a melhora da coordenação da atividade do esfíncter, concentrando-se em melhorar a força muscular e a resistência dos MAP (9).
Este protocolo é parecido com o que se encontra na literatura como recomendado. (2, 3, 23) Autores descrevem 30 a 100 repetições de contração por dia, com objetivo de aumentar a força muscular do AP, e também deve-se intercalar os períodos de contração com períodos de repouso, que podem variar com o grau de força de cada paciente (escala Oxford) (2, 3, 23), mas comumente utiliza-se ou períodos de repouso > contração ou repouso < contração.
Os autores (6, 7) também utilizaram um protocolo com treinamento muscular perineal (TMAP) com objetivo de maximizar a resistência, melhorar a duração da força, e a coordenação das contrações, porém incluiu em sua pesquisa o treinamento com o balão retal (TBR) para avaliar a eficácia da associação dos recursos.
O TBR tinha como objetivo avaliar o limiar sensorial retal a sensação de urgência fecal e o volume retal máximo tolerado (6, 7). Durante o tratamento os pacientes que apresentavam o reto insensíveis foram treinados para distinguir e responder aos volumes retais menores em resposta a distensão até se atingir um nível normal de limiar sensorial (valores normais 10 – 30 ml). E os pacientes com hipersensibilidade retal foram treinados para tolerar volumes maiores por meio de distensão progressiva e resistência de urgência até se atingir um nível normal de sensação de urgência (valores normais 60 – 150 ml) (4). Outro estudo que utilizou exercícios para a MAP foi (8) que mantiveram um grupo controle, onde aplicaram exercícios para a MAP através da EMG e no grupo TTO era aplicado a estimulação elétrica funcional (FES) com intuito de fortalecer a MAP. Enquanto no estudo (7), utilizaram a TENS do nervo tibial posterior (estimulação elétrica transcutânea) visando melhorar a função anorretal. Os eletrodos posicionados no nervo tibial posterior atuam nos músculos assoalho pélvico, através da neuromodulação do nervo pudendo permitindo que aconteça a contenção das vísceras pélvicas e da continência fecal e urinária (7, 16, 27).
Esses dois autores (7, 8) avaliaram a eficácia da eletroestimulação no TTO da IF. A eletroestimulação fornece estímulos sensório – motores a MAP. O uso da corrente excitomotora visa o fortalecimento muscular, a melhora do tônus e hipertrofia da muscular, funcionalidade esfincteriana e a conscientização motora, através da contração muscular em resposta ao estímulo elétrico (16, 22).
Em ambos as pesquisas os autores recomendavam exercícios diários para os pacientes realizarem em casa (6), para aumentar as chances de êxito. As limitações encontradas pelos autores deste estudo foram relacionadas ao número pequeno de pctes incluídos, o tempo do estudo e os métodos subjetivos de avaliação. O impacto positivo de o treinamento perineal ter sido evidente em ambas as auto-avaliações de melhora dos sintomas (9). Porém, não alcançou o número “bom” de pessoas, assim como nos estudos (6, 8). Outro fator limitante sugerido nos estudos revisados é o fato da curta duração do estudo.
Alguns autores consideraram que apenas quatro meses de pesquisa uma possibilidade de não ter detectado maiores resultados em longo prazo, principalmente sobre a qualidade de vida (9).
Também ressaltam (6) que várias medidas de resultados têm sido utilizadas para avaliar os estudos de fisioterapia pélvicos, mas não há medidas de resultados com um elevado nível de rigor científico, devido à falta de um critério padrão e, além disso, a interpretação das alterações nos volumes de distensão retal se tornou complicada, pois não existe consenso sobre padrões de intervalos normais.
No estudo (8) a eletroestimulação surgiu como uma opção terapêutica razoável, tendo em conta a sua simplicidade, custo e eficácia. Porém, mencionam que é possível que os parâmetros de estimulação diferentes do que foi utilizado no estudo, teria sido mais benéfico e que um período de > seis semanas teria produzido resultados diferentes. E outro critério importante é o fato dos autores não terem incluído medidas objetivas de teste de função anorretal, como a manometria anorretal antes e após o tratamento e, por fim, o uso da EMG de superfície não pode representar a medida absoluta de músculo, pois pode ter sido ativo os músculos sinergistas.

CONCLUSÃO
A incontinência fecal é uma disfunção que atingi o pacientes de maneiras física, social e emocional com grande impacto e, por este motivo, a intervenção fisioterapêutica é essencial.
Favorece a melhora da disfunção e tardia ou até inibi a necessidade de intervenção cirúrgica. Nos artigos revisados neste estudo, foi observada melhora dos parâmetros avaliados, tais como: controle de urgência fecal, melhora na função do esfíncter anal externo, e melhora da força muscular do períneo, além de melhora nas adaptações de estilo de vida, assim como melhora da ansiedade, e relatos de melhora nas escalas subjetivas de qualidade de vida. Além disso, o acompanhamento com dietas e medicamentos para melhora dos movimentos intestinais e consistência das fezes, oferecem benefícios junto ao tratamento fisioterapêutico.
Os resultados dos artigos sugerem a necessidade de mais estudos, com maior número de pacientes, com intuito de melhor definir e divulgar de forma mais eficaz as técnicas da fisioterapia, como a EE, o BFB e a cinesioterapia perineal. Desse modo, além de ampliar os conhecimentos dos profissionais da área, novos estudos contribuirão para a melhor divulgação e orientação do tratamento fisioterapêutico da IF aos pacientes, diminuindo assim, o impacto no âmbito emocional e as consequências da disfunção perineal.



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